BR 153

Entrar no ônibus no começo da noite e dar ocasião pros delírios da semi-sonolência. Os automóveis deslizando pelo asfalto como se fossem esquiadores sobre o gelo, silenciosos, numa harmonia profunda. A telejanela do ônibus transmitindo os postos de gasolina mais tristes do Brasil. Uma senhorinha transformando o português numa língua estrangeira pra mim, contando novelas com a monótona voz de quem reza um terço.

A contagem dos passageiros, a ponta dos dedos do cobrador indicando a presença de gente cochilante, ausente, despedinte, errante. O tédio sombrio da excursão de exaustos.

Uma parada no interior de Goiás, nem todos descem do ônibus. Alguns tremem com o frio, outros se abanam pelo calor. O cigarro espremido entre os dedos da senhorinha do terço. Serão dez da noite ou quatro da manhã? O arranque do motor convida os senhores passageiros a tomarem seus assentos.

Tenho saudades de ninguém, mas tenho chocolates. Brasileiro ou suíço, vagabundo de qualquer jeito. Alcanço a pedra de cacau de modo a não despertar o rapaz que vai desacordado a meu lado. Ele geme alguma coisa, um grunhido que confirma ser essa a língua oficial no ônibus que sai do interior de Goiás para a capital do Tocantins. Aproveito pra gemer também. No escuro voa um rastro de luz que me permite ver a senhorinha da novela pedindo passagem pra ir ao banheiro.