atendimento vivo

Tava eu descendo a raposo tavares a mil por hora com meu gol mil 94, a placa do automóvel batendo lata com o poperô das caixas de som, ultrapassagens alucinantes, rastro de fogo ficando pra trás com o trilho que o veículo faz.

Tava a mil por hora, mas dentro dos limites de velocidade. Sou um playboy incorrigível, e justamente por isso ajuizado. Todo mundo sabe, esses velocímetros da vida são incapazes de dizer a verdade. Relógios, coitados, não são mais que a sistematização da mentira. Quando eu vou poder acreditar no peso que me indica a balança da farmácia? Sou mais pesado que uma locomotiva. Sensação térmica 45 graus.

Pois eu vinha descendo a raposo tavares a mil por hora quando o telefone apita. DDD 88, que saudade desse sotaque, vou atender.

O rapaz do outro lado tinha a voz do Chacrinha. Mandou um "atendimento vivo, boa tarde" e anunciou que eu havia sido contemplado com o sorteio de 20 mil reais. Perguntou como eu me sentia com a notícia.

Adorei o insert de subjetividade que ele trouxe ao papo. Como eu estava me sentindo?

- Rapaz, eu não estou acreditando!

Percebi a inquietação no outro lado da linha. A minha resposta, ambígua, deve ter feito ele desconfiar da minha credulidade. Não acredita de tão feliz, ou não acredita porque minha picaretagem não colou? Mesmo assim prosseguiu.

- Você deve seguir alguns passos pra receber esse montante, senhor Danilo.

- Diz pra mim o passo a passo que eu realizo ainda hoje. Suponho que eu deva pagar uma taxa pela transferência dos valores, não é isso, companheiro?

- É exatamente isso, campeão.

- E eu posso fazer o que eu quiser com essa grana?

- Perdoa, campeão, a ligação falhou.

- É que a vivo é uma bosta. Mas eu ia dizendo: posso fazer o que eu quiser com esse dinheiro?

- Mas é claro, senhor Danilo. O dinheiro é todo seu.

- Pois então eu gostaria que o senhor doasse o dinheiro pra instituição de caridade do Luciano Huck, aquela que realiza o sonho de crianças carentes, manja?

Desligou o telefone na minha cara.

Trinta minutos depois, outra ligação. DDD 88.

- Companheiro, abomino a sua profissão. Ficar bolindo no dinheirinho dos outros. Além do que, o senhor finge muito mal. Percebi a picaretagem com a primeira frase da ligação anterior. Desiste disso aí, tenta alguma coisa no ramo dos tecidos, que você vai ter mais sucesso.

A despedida dele, confesso, me comoveu.

- Tudo bem, campeão, tudo bem.

E desligou de novo.

Vinte minutos depois, outra ligação. DDD 88. Atendi, ele fez a mesma festa. Embarquei na onda, já rolava até uma intimidade. 

- Uma dúvida: até que hora vai o seu expediente? Quantas tentativas hoje? Pegou alguma velhinha?

- É você de novo, campeão?

- Sim, e estou curiosaço. Conta um pouco do seu trampo aí, vai. Dá essa alegria pra mim.

O que veio depois disso foi o relato mais espantoso que ouvi na vida. Ele estava em um hotel vagabundo no centro histórico de Recife, um calorão sinistro. Tinha um telefone do interior (clonado) nas mãos, um ventilador e um aparelho de som por perto. Esse aparelho, em continous play, reproduzia o som ambiente de alguma sala de telemarketing, gravação pirata que ele conseguiu no youtube. Passava o dia tentando "vender esse peixe" pras velhinhas, quase nunca dando certo. Pra no fim de tarde dar um mergulho no mar de tubarões, passar um rexona nas axilas e correr pro forró, onde se acabava com a pinga, com os giros na pista e com o sexo barato das meninas do centro histórico.

- Digno, muito digno, campeão.

- Abraço pra você, senhor Danilo. Qualquer dia vem me visitar.