sound and vision

Presenças reptílicas perturbando o ânimo de meus passos. É preciso seguir em frente. Meus répteis internos, o bestiário brasileiro que me constitui, o calango pré-cambriano, a galinha de crista exuberante, as constelações de girinos, todo mundo gritando utererê enquanto eu me viro como posso para manter a qualidade da apresentação. 

Quem se apresenta é um portador de répteis imaginários, mas a educação vem sempre em primeiro lugar. Orquestra pessoal executando a Quinta de Beethoven ao contrário, sorrio como posso, e ainda sou capaz de algumas palavras em português.

Voltagem com que alimentá-los, meus répteis imaginários: 220 volts aplicados com austeridade. O desconcerto eu apresento como charme, porque é preciso dar um alô para essa moça de quem inevitavelmente me aproximo, dois metros a cada canção do bowie que o dj projeta pelo ar. Cigarro em atitude de desespero, levanta o olhar e me submete, diminui, encurrala, um olhar de estudo e desprezo. Lasquei-lhe um beijo na boca, mas quem lascou-lhe foi o calangão, porque eu mesmo em pause estupefato acabei por me manter absorto na curvatura absoluta do rosto da beldade. Como havia música, não foi preciso palavra.

No corredor dos fatos espontâneos, fomos dar na sala do piano, diante do qual acabamos nos sentando, a quatro mãos um amasso memorável, amasso musical – em terças e quintas, oitavas e sextas. Nossa música profunda: um mi que você despejou sobre meu dó, inclementemente.

A sala do piano abandonada em silêncio, o toc toc dos sapatos em fade out sobre o mármore rosa, a penetração do espaço do jardim. Par de botas deixadas para trás, jazendo sobre o gramado ao lado do meu sapatim de couro falseta, não é que se entenderam bem, os meus répteis e os seus?

Voltar pra música, pra festa, pra pista, foi um modo de experimentar o olimpo provisório da tranquilidade: o deleite da visão da compostura recém-adquirida, o alinhamento recuperado dos cabelos, o jeito de sorrir de longe e de permanecer distante. Que sarro! Meus répteis, enfim, podem dormir, pacificados. 

BR 153

Entrar no ônibus no começo da noite e dar ocasião pros delírios da semi-sonolência. Os automóveis deslizando pelo asfalto como se fossem esquiadores sobre o gelo, silenciosos, numa harmonia profunda. A telejanela do ônibus transmitindo os postos de gasolina mais tristes do Brasil. Uma senhorinha transformando o português numa língua estrangeira pra mim, contando novelas com a monótona voz de quem reza um terço.

A contagem dos passageiros, a ponta dos dedos do cobrador indicando a presença de gente cochilante, ausente, despedinte, errante. O tédio sombrio da excursão de exaustos.

Uma parada no interior de Goiás, nem todos descem do ônibus. Alguns tremem com o frio, outros se abanam pelo calor. O cigarro espremido entre os dedos da senhorinha do terço. Serão dez da noite ou quatro da manhã? O arranque do motor convida os senhores passageiros a tomarem seus assentos.

Tenho saudades de ninguém, mas tenho chocolates. Brasileiro ou suíço, vagabundo de qualquer jeito. Alcanço a pedra de cacau de modo a não despertar o rapaz que vai desacordado a meu lado. Ele geme alguma coisa, um grunhido que confirma ser essa a língua oficial no ônibus que sai do interior de Goiás para a capital do Tocantins. Aproveito pra gemer também. No escuro voa um rastro de luz que me permite ver a senhorinha da novela pedindo passagem pra ir ao banheiro.

mesa compartilhada

Tomando assento na mesa de pau do empório alto de pinheiros, ouvindo sem querer o papo das moças ao lado, essas mesas de compartilhar que a gente nunca sabe se deve dizer "oi gente" ou não. Concentro esforços pra emitir atestado de riqueza, acertei com uma afetação blasê muito bem medida, na hora de pedir licença. Nenhum esbarrão grosseiro, nenhum deslumbramento excessivo.

A situação me fez lançar ao guardanapo um poema das antigas

é que acabei de comer um misto / por isso os dedinhos de condessa / minha nobreza tem isso / sempre um fundo de manteiga

Peço um chope que me causa a alegria de um picolé dourado. Dá vontade de continuar escrevendo, na falta de mais guardanapos lanço tinta sobre esse livro que acabei de comprar. Vou achando espaço nos vazios da página, cresce um texto dentro do outro, ataque pirata dos meus garranchos sobre a estrutura dos diálogos do Dias Gomes. Que postura! Parece que estou numa noite de autógrafos. Starman, do Bowie, imprime ainda mais charme à atmosfera.

Acabei de perceber, essas moças fizeram novela! O fator andy warhol salta aos olhos. Perdi a concentração - a capa do livro, dotada de vida própria, moveu-se pela centrípeta (como explicar essa força que atrai para o centro?), deu-se a revelar. Ninguém moveu os lábios, mas me liguei na leitura da vizinha

O BEM AMADO

Caiu a máscara do escritor autografando. Mas pelo menos ficou a do intelectual que toma um chopinho. Preciso reconhecer que elas foram muito simpáticas comigo, desde o primeiro momento. Quando pedi licença, a do lado de lá amargou um sorriso que me fez lembrar as vilãs da Renata Sorrah. Absoluta certeza que amaldiçoou essa moda de mesas compartilhadas. Tanto que fez a menor cerimônia pra sair do modo simpatia forçada (pra mim, todo seu gesto resumia única palavra: "mendigo!"), recuperou a lindeza, fumou um cigarro existencial, todo o Foucault do mundo numa expiração fumegante.

Tive a impressão que se eu puxasse papo elas acionavam o Bope na hora. A iminência do risco mobilizou minhas perversões mais profundas. Pintou uma microvontade de ser chato. Fantasiei umas inconveniências. Algo como: comentar qualquer coisa depois de ouvir mais que devia do papo delas. Se falassem de Paraty, emendava: "a praia do sono é linda".  Se o assunto é moda: "caimento é tudo".

Quem sabe um papo bíblico, do nada? Uma ou outra parábola, duas bem-aventuranças promissoras que não se concretizaram, um retrato falado do santo sudário, os cabelos de Madalena enxugando devota os pés de um Cristo tentando a todo custo controlar as cócegas e a crise de riso. 

Esse o melhor momento pra ser inconveniente: chegou comida. Qualquer comentário, qualquer um, poderia despedaçar o gelo da mesa compartilhada: "parece crocante". "Com catchup, isso fica uma delícia". "Mal lhes pergunte: quanto vocês pagaram por essa porção?".

Comer é um negócio que sempre me causa vexame. Detesto ser visto com os lábios oleosos. Eu passo fome, mas não como nem uma alface numa mesa como essa. Mas com as vizinhas, o charme não tem abalo. Toda a civilização do mundo no jogo entre mastigação e guardanapo. Nenhuma manteiga naquele caminhão de nobreza.

Banda é presa com 2 quilos de café da manhã em São Paulo

Integrantes da banda Porcas Borboletas, de Minas Gerais, foram detidos ontem com dois kilos de café da manhã, em frente a hotel de luxo em São Paulo. Foram encontradas 4 maçãs, duas pêras, sachês de ovomaltine, queijo, presunto de peito de peru, iogurtes, pães de queijo, ovo mexido e bacon frito envolto em guardanapo. Informantes teriam relatado o delito à polícia.

Ricardo Batista Ramos, o Ricardim, tentou justificar a contravenção alegando necessidade básica: "Vamos permanecer em são paulo por um bom tempo ainda. O café da manhã do hotel em que estávamos hospedados se encerra às 10 da manhã. E a turnê da banda em São Paulo se estende até quinta. Foi preciso estocar alimento".

Chelo Lion Tigerdog também tentou prestar esclarecimentos à imprensa e à polícia. Todavia, não chegou a formular uma defesa, dado o embargo imposto à sua voz pelos dois pães de queijo com presunto e mussarela que tentava em vão deglutir. Os meliantes foram detidos imediatamente.

Mariana Soldi, eleita advogada do grupo, ainda não entrou com o pedido de habeas corpus. Chegou a produzir o documento, mas disse ter sido orientada por seus clientes a, antes de tudo, conseguir autorização para a entrada dos alimentos apreendidos na cela. "Que vale a liberdade, se estamos longe dos nossos pães de queijo?" – questionou o guitarrista Moita Mattos.

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