mesa compartilhada

Tomando assento na mesa de pau do empório alto de pinheiros, ouvindo sem querer o papo das moças ao lado, essas mesas de compartilhar que a gente nunca sabe se deve dizer "oi gente" ou não. Concentro esforços pra emitir atestado de riqueza, acertei com uma afetação blasê muito bem medida, na hora de pedir licença. Nenhum esbarrão grosseiro, nenhum deslumbramento excessivo.

A situação me fez lançar ao guardanapo um poema das antigas

é que acabei de comer um misto / por isso os dedinhos de condessa / minha nobreza tem isso / sempre um fundo de manteiga

Peço um chope que me causa a alegria de um picolé dourado. Dá vontade de continuar escrevendo, na falta de mais guardanapos lanço tinta sobre esse livro que acabei de comprar. Vou achando espaço nos vazios da página, cresce um texto dentro do outro, ataque pirata dos meus garranchos sobre a estrutura dos diálogos do Dias Gomes. Que postura! Parece que estou numa noite de autógrafos. Starman, do Bowie, imprime ainda mais charme à atmosfera.

Acabei de perceber, essas moças fizeram novela! O fator andy warhol salta aos olhos. Perdi a concentração - a capa do livro, dotada de vida própria, moveu-se pela centrípeta (como explicar essa força que atrai para o centro?), deu-se a revelar. Ninguém moveu os lábios, mas me liguei na leitura da vizinha

O BEM AMADO

Caiu a máscara do escritor autografando. Mas pelo menos ficou a do intelectual que toma um chopinho. Preciso reconhecer que elas foram muito simpáticas comigo, desde o primeiro momento. Quando pedi licença, a do lado de lá amargou um sorriso que me fez lembrar as vilãs da Renata Sorrah. Absoluta certeza que amaldiçoou essa moda de mesas compartilhadas. Tanto que fez a menor cerimônia pra sair do modo simpatia forçada (pra mim, todo seu gesto resumia única palavra: "mendigo!"), recuperou a lindeza, fumou um cigarro existencial, todo o Foucault do mundo numa expiração fumegante.

Tive a impressão que se eu puxasse papo elas acionavam o Bope na hora. A iminência do risco mobilizou minhas perversões mais profundas. Pintou uma microvontade de ser chato. Fantasiei umas inconveniências. Algo como: comentar qualquer coisa depois de ouvir mais que devia do papo delas. Se falassem de Paraty, emendava: "a praia do sono é linda".  Se o assunto é moda: "caimento é tudo".

Quem sabe um papo bíblico, do nada? Uma ou outra parábola, duas bem-aventuranças promissoras que não se concretizaram, um retrato falado do santo sudário, os cabelos de Madalena enxugando devota os pés de um Cristo tentando a todo custo controlar as cócegas e a crise de riso. 

Esse o melhor momento pra ser inconveniente: chegou comida. Qualquer comentário, qualquer um, poderia despedaçar o gelo da mesa compartilhada: "parece crocante". "Com catchup, isso ficaria uma delícia". "Mal lhe pergunte: quanto vocês pagaram por essa porção?".

Comer é um negócio que sempre me causa vexame. Detesto ser visto com os lábios oleosos. Eu passo fome, mas não como nem uma alface numa mesa como essa. Mas com as vizinhas, o charme não tem abalo. Toda a civilização do mundo no jogo entre mastigação e guardanapo. Nenhuma manteiga naquele caminhão de nobreza.

Foto: Gil Oliveira

atendimento vivo

Tava eu descendo a raposo tavares a mil por hora com meu gol mil 94, a placa do automóvel batendo lata com o poperô das caixas de som, ultrapassagens alucinantes, rastro de fogo ficando pra trás com o trilho que o veículo faz.

Tava a mil por hora, mas dentro dos limites de velocidade. Sou um playboy incorrigível, mas justamente por isso ajuizado. Todo mundo sabe, esses velocímetros da vida são incapazes de dizer a verdade. Relógios, coitados, não são mais que a sistematização da mentira. Quando eu vou poder acreditar no peso que me indica a balança da farmácia? Sou mais pesado que uma locomotiva. Sensação térmica 45 graus.

Pois eu vinha descendo a raposo tavares a mil por hora quando o telefone apita. DDD 88, que saudade desse sotaque, vou atender.

O rapaz do outro lado tinha a voz do Chacrinha. Mandou um "atendimento vivo, boa tarde" e anunciou que eu havia sido contemplado com o sorteio de 20 mil reais. Perguntou como eu me sentia com a notícia.

Adorei o insert de subjetividade que ele trouxe ao papo. Como eu estava me sentindo?

- Rapaz, eu não estou acreditando!

Percebi a inquietação no outro lado da linha. A minha resposta, ambígua, deve ter feito ele desconfiar da minha credulidade. Não acredita de tão feliz, ou não acredita porque minha picaretagem não colou? Mesmo assim prosseguiu.

- Você deve seguir alguns passos pra receber esse montante, senhor Danilo.

- Diz pra mim o passo a passo que eu realizo ainda hoje. Suponho que eu deva pagar uma taxa pela transferência dos valores, não é isso, companheiro?

- É exatamente isso, campeão.

- E eu posso fazer o que eu quiser com essa grana?

- Perdoa, campeão, a ligação falhou.

- É que a vivo é uma bosta. Mas eu ia dizendo: posso fazer o que eu quiser com esse dinheiro?

- Mas é claro, senhor Danilo. O dinheiro é todo seu.

- Pois então eu gostaria que o senhor doasse o dinheiro pra instituição de caridade do Luciano Huck, aquela que realiza o sonho de crianças carentes, manja?

Desligou o telefone na minha cara.

Trinta minutos depois, outra ligação. DDD 88.

- Companheiro, abomino a sua profissão. Ficar bulindo no dinheirinho dos outros. Além do que, o senhor finge muito mal. Percebi a picaretagem com a primeira frase da ligação anterior. Desiste disso aí, tenta alguma coisa no ramo dos tecidos, que você vai ter mais sucesso.

A despedida dele, confesso, me comoveu.

- Tudo bem, campeão, tudo bem.

E desligou de novo.

Vinte minutos depois, outra ligação. DDD 88. Atendi, ele fez a mesma festa. Embarquei na onda, já rolava até uma intimidade. 

- Uma dúvida: até que hora vai o seu expediente? Quantas tentativas hoje? Pegou alguma velhinha?

- É você de novo, campeão?

- Sim, e estou curiosaço. Conta um pouco do seu trampo aí, vai. Dá essa alegria pra mim.

O que veio depois disso foi o relato mais espantoso que ouvi na vida. Ele estava em uma hotel vagabundo no centro histórico de Recife, um calorão sinistro. Tinha um telefone clonado nas mãos, um ventilador e um aparelho de som por perto. Esse aparelho, em continous play, reproduzia o som ambiente de alguma sala de telemarketing, gravação pirata que ele conseguiu no youtube. Passava o dia tentando "vender esse peixe" pras velhinhas, quase nunca dando certo. Pra no fim de tarde dar um mergulho no mar de tubarões, passar um rexona nas axilas e correr pro forró, onde se acabava com a pinga, com os giros na pista e com o sexo barato das meninas do centro histórico.

- Digno, muito digno, campeão.

- Abraço pra você, senhor Danilo. Qualquer dia vem me visitar.  

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